sexta-feira, 24 de julho de 2015

Uma Harley-Davidson numa estrada de trem, na Bolívia.

Minha recente viagem pela Bolívia foi sensacional. Visitei as cidades de Santa Cruz, Cochabamba, La Paz, desci a estrada da morte de bicicleta e subi de moto, visitei Potosi, Sucre, Uyuni e por último, Tupiza. Show. Povo cortês, humilde, sempre dispostos a dar informações, enfim, gostei e voltarei. (veja o relato aqui).

Contudo, tive um pequeno contratempo em Potosi. Os mineiros, e praticamente toda a população da cidade bloquearam a cidade num movimento onde reivindicam de Evo Morales, o retorno, em forma de investimento para a população, das pratas retiradas do departamento. Alegam que o presidente comunista/capitalista só beneficiam as empresas mineradoras.

Pois bem. Se o movimento é justo ou não, eu não sei. Vindo de Uyuni, ao chegar na entrada da cidade, encontrei a rodovia bloqueada por pedras. Não havia como passar com a guerreira. Nos dias imediatamente anteriores, quando passei por Potosi para ir a Sucre (e na volta), o trânsito de motos estava liberado. Mas na volta de Uyuni, tudo bloqueado.
Bloquearam com pedras a entrada da cidade.
Conversei com os grevistas, expliquei que estava indo para Tupiza, que era turista brasileiro, mas eles se mostraram, inicialmente, intransigentes. Teria que retornar para Uyuni e pegar a estrada de terra que iria para onde eu queria. Nem pensar. A estrada é intransitável para motos tipo a guerreira. Iria, só em último caso. Com muito custo, concordaram que eu passasse. Mas tive que retirar algumas pedras do caminho, com ajuda de um grevista.

Haja pedras... Um Potosino grevista me ajudou.
Depois disso, havia vários bloqueios pela cidade. Fui passando um a um até chegar à saída para Tupisa. 

Com pedras e paus nas mãos, as mulheres dos mineiros (as mais furiosas), impediram minha passagem. Havia duas opções para mim: Esperar anoitecer (eram 13h) e passar à noite, quando o bloqueio deveria estar menor (não era certeza), ou permanecer, indefinidamente na cidade.

Daí, surgiu uma terceira opção, vinda de um motociclista, que faz parte de uma banda de reggae. Juan Carlos. 
O Juan é esse de bandana na cabeça. O outro é um dos músicos de La Paz.
Segundo ele, sairíamos da cidade por uma velha linha de trem. Argumentei que minha moto não trafegava por linhas de trem. Ele disse que iríamos pela lateral, que era plana. Duraria uns vinte minutos, disse ele. Entre as duas primeiras opções, escolhi essa. E lá fomos nós... Detalhe: Ele e mais um amigo estavam transportando três membros de uma banda que iria para a Argentina. Como estavam em duas motos, tive que levar um integrante da banda na garupa. Contudo, ao sair do asfalto, decidi que não seria possível levá-lo, dada a quantidade de cascalho da 'via'. Seria muito arriscado. Ele desceu e fomos.


Daí pra frente foi pura aventura... Creio que nenhum motociclista conduzindo uma moto Harley-Davidson Ultra Limited, pesando mais de 450kg tenha se aventurado por caminhos tão perigosos. Mais perigosos que a temida estrada da morte, que tinha percorrido há quatro dias. Cascalhos, precipícios, linha de trem, etc...
O perigo se mostrou desde o início.
Não tinha melhor lado. Tinha um menos pior...
O segredo é olhar para onde quer ir. A guerreira, sábia, vai... E o sol na cara!!
O visual era até bonito.
Depois de percorremos quase uma hora (eram vinte minutos...), e com os motociclistas em suas big-trails sumidos à frente, e passar por locais cheios de cascalhos e terra, a guerreira, sabiamente, tombou numa curva. A guerreira só tombou três vezes. Todas três em estradas não pavimentadas. A primeira, na serra do corvo branco. A segunda, voltando de Ushuaia, também numa estrada de rípio. Nessas condições, não há como levantar a moto sozinho. Tem que esperar ajuda. Tentei colocar meu colete sobre a moto e o capacete na moto para avisar que estava com problemas, mas pensei: ninguém passa por aqui (isso é zoação).
Na próxima curva, a guerreira não resistiu aos cascalhos e buracos...

Nada de grave. Apenas a garrafinha de água se amassou.
Os motociclistas em suas big-trails tinha sumido a minha frente. Tentei levantar a guerreira, segundo os ensinamentos dos cursos, mas não consegui. Estava muito pesada, devido a bagagem e ao instrumento musical de um dos músicos que transportava. Além do mais, respirar a 4.200msnm é complicado. Qualquer esforço, eu cansava rápido. O jeito foi esperar por socorro. Passaram-se 30min, 40min e ninguém aparecia. Sabia que os amigos iriam voltar. Afinal estava com o instrumento musical deles.

Ao olhar para a montanha vi, ao longe, o vulto de uma pessoa. Gritei, pedi auxílio e a pessoa começou a se movimentar em minha direção. Levou uns 30min para chegar. Quando chegou, a surpresa: era um garoto índio que aparentava ter uns 10 anos. Expliquei-lhe a situação e ele disse que seu irmão o ajudaria. E veio o irmão. Talvez uns 6 anos. Mas conseguimos levantar a moto. Não deixaram, de forma alguma, que os fotografassem. Diz a lenda que fotos roubam-lhe a alma. Não sei. Só sei que ele ficou bravo!!

Segui adiante e mais a frente encontrei uma bifurcação. E agora? Para a esquerda ou para a direita? O jeito foi parar e esperar. E curtir a paisagem, que lá de cima era um espetáculo.
Esquerda ou direita?
A paisagem, vista lá de cima, é show!! Vejam toda a estrada percorrida.
Passados uns dez minutos, o Juan e seu amigo voltaram com uma notícia que me atormentou: Não tinha como passar. Os grevistas, usando um trator, tinham furado um buraco na estrada, impedindo o trânsito de veículos. Tínhamos que voltar. Que merda, pensei comigo mesmo. Terei que passar por tudo novamente? Sim. Tive. Mas transcorreu tudo bem. Cansado, mas consegui. E prometi para mim mesmo que jamais me envolveria nesse tipo de aventura. Não sei se irei cumprir essa promessa...

A minha sorte foi que o Juan é um boliviano muito inteligente. Disse-me para não falar nada. Deixasse que ele conseguiria me tirar da cidade. E fomos, bloqueio por bloqueio, chegando à saída da cidade. Inventou uma história que eu era um jornalista brasileiro cobrindo o movimento deles e que eu queria ir até ao povoado mais próximo, no sentido de Tupiza, para completar a reportagem. E, com microfone e gravador em punho, ele ia entrevistando as lideranças e conseguindo passagem.

Enfim, às 18h10 consegui sair da cidade. Após 6h de idas e vindas, sem almoço, sem água e sem lanche, fui, pilotando à noite, pela ruta que me disseram que era a mais linda da Bolívia, até o meu destino do dia: Tupiza, a 80km da divisa com a Argentina.

No dia seguinte, foi possível constatar que, realmente, a rodovia era linda. Mas não quis voltar para conferir. Fica para a próxima viagem, quando for ao deserto de Atacama, no ano que vem.



Veja as fotos no flickr, clicando aqui.

Veja o vídeo no youtube:  



Assista um pequeno trecho em minha página no facebook:
O destino é certo. O caminho, não. No caso, o destino era Tupiza/Bolívia. Os caminhos normais, devido a um 'paro'...
Posted by De Moto Com Destino on Segunda, 27 de julho de 2015

9 comentários:

  1. Parabéns Celso, muito legal o seu relato e com certeza teve horas de muita tensão, mas enfim são coisas que acontecem para quem esta na estrada e muito bom que tudoacabou bem , grande abraço meu amigo

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  2. Muito legal essa aventura! é assim que se faz história...

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  3. Crónica fabulosa, Muitos parabéns

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  4. Prezado Celso como vai? é um prazer ler suas aventuras, não sei se lembrará de mim nos encontramos em um parada numa rodovia no interior do Paraná eu estava em uma S10 preta na época da copa e você me presenteou com o seu adesivo e naquela época falei que gostaria de andar em um HAERLEY ainda não consegui, talvez falta de coragem mas este ano estou decidido a cumprir meu sonho.
    Grande abraço
    Cleber de BH.

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